Histórico da imigração austríaca
A viagem
Depoimento histórico da imigração austríaca, atribuído a Ludwig Streicher, com complemento sobre a família Prauchner.
Contexto do relato
Durante os festejos do 40º aniversário da chegada dos primeiros austríacos à então Colônia de Ijuí, em 24 de fevereiro de 1893, festivamente comemorado em 5 de março de 1933, o imigrante Ludwig Streicher deixou um histórico relato, publicado na época em um folheto alusivo à data.
Com base neste depoimento, foi possível reconstruir a odisséia vivida por aqueles pioneiros, desde sua partida na Europa até a chegada a Ijuí. A matéria jornalística é atribuída a Lothar Friedrich.
A Áustria e os imigrantes austríacos no sul do Brasil
A Áustria, Österreich, deve seu nome à Ostmark, a Província Oriental incorporada ao Sacro Império Romano por Carlos Magno. Mais tarde, já em 996, recebeu o nome de Ostarichi. A palavra Richi, do alemão arcaico, equivale a Reich e significa império, reinado ou estado. Procede do termo gótico Reiks, isto é, senhor soberano ou rei, possivelmente sob influência do latim Rex.
Sob o domínio dos Habsburgos, a Áustria tornou-se a maior potência da Confederação Germânica. Perdeu essa condição somente após a derrota na guerra contra a Prússia, em 1866. No ano seguinte, constituiu com a Hungria o Império Austro-Húngaro, que se desmoronaria ao final da Primeira Guerra Mundial, com a separação da Hungria e a fundação do regime republicano.
No sul do Brasil viviam numerosos austríacos, muitos deles imigrados isoladamente e por conta própria. Um grupo de famílias procedentes da região alpina, porém, veio de forma mais ou menos organizada. Essas famílias permaneceram unidas não apenas durante a viagem, mas também depois de fixadas no Rio Grande do Sul.
De modo especial, as famílias cujo destino as trouxe até a promissora Colônia de Ijuí deixaram exemplos de espírito comunitário, dedicação e perseverança. Sempre que altas autoridades ou representantes de governos estrangeiros visitavam o município, eram convidados a conhecer os “austríacos”, considerados pelo diretor Dr. Augusto Pestana como um fermento progressista em meio à multicolorida variedade étnica da população ijuiense.
Crise social e emigração para o Brasil
No fim do século XIX, as indústrias metalúrgicas, principalmente as fábricas de armas, entraram em grave crise. Uma fábrica de armamento em Steyr, na Áustria, que em seu período áureo contava com 10.000 empregados, demitiu em 1892 cerca de 7.000 funcionários por falta de encomendas.
Os reflexos dessa paralisação, com índices de desemprego até então incomuns, fizeram com que muitos pais de família, preocupados com o futuro de seus dependentes, resolvessem tentar a sorte além-mar, em terras da América.
Na mesma época, pouco depois da abolição definitiva da escravatura, havia no Brasil acentuada escassez de mão de obra rural. O governo brasileiro mantinha agentes aliciadores na Europa para recrutar pessoas interessadas em trabalhar nas fazendas de café em São Paulo.
Atraídos pelas promessas de prosperidade em um país cuja primeira imperatriz fora Dona Maria Leopoldina, filha do imperador Francisco II da Áustria, muitos daqueles operários desempregados resolveram emigrar para o Brasil. Depois de colherem informações sobre as condições de vida e trabalho, porém, somente concordaram em deixar seu país quando o diplomata brasileiro residente em Viena lhes assegurou que seriam assentados no Rio Grande do Sul.
No sul, em zona de clima temperado, obteriam concessão de propriedades rurais e não seriam alistados para trabalhar em plantações alheias.
Da Áustria a Gênova
No dia 15 de dezembro de 1892, 93 famílias, somando cerca de 300 pessoas, resolveram vir para o Brasil. Embarcaram em um trem que as levou até a fronteira austro-italiana, em Pontafel-Fontebba. Ali fizeram baldeação com destino ao porto de Gênova.
No trajeto, na pequena cidade de Udine, mais 100 imigrantes reuniram-se ao grupo. Também haviam sido recrutados por agentes e procediam da Stíria, igualmente dispostos a deixar o velho continente.
As despesas de viagem até Gênova, na Itália, foram cobertas pelos próprios emigrantes. Nesse porto, foram embarcados no vapor italiano Arno, como hóspedes do governo brasileiro, que assumiu todas as despesas até o fim da viagem.
Antes de embarcarem na nave que os afastaria para sempre de sua pátria, receberam um pormenorizado ofício da Prefeitura de Linz, na Áustria, com novas recomendações para que recusassem trabalhos nas plantações de café. Despediram-se assim do velho mundo e de tudo o que lhes era caro e familiar, com a segurança de que sua pátria os assistiria na longínqua terra que buscavam.
A travessia no vapor Arno
Viajar não era nada cômodo naquela época. Os navios eram pequenos e pouco confortáveis. Para aquela gente, contudo, renunciar por algumas semanas às benesses da civilização pouco representava diante da possibilidade de se libertar da falta de oportunidades e da penúria reinante na velha pátria.
A falta de assistência para as numerosas crianças pequenas e a escassez de leite natural representavam dificuldades quase insuportáveis. O leite em conserva era muito caro, e sua compra obrigou os imigrantes a sacrificar suas últimas reservas monetárias. Felizmente, haviam adquirido ferramentas e vestimentas, as únicas reservas que possuíam ao pisar o solo da nova pátria.
No dia 20 de dezembro de 1892, o Arno se pôs ao mar. Passou pela noite de Natal, em 24 de dezembro, pelo Estreito de Gibraltar. No segundo dia de Natal, foram avistadas as Ilhas Canárias. Em 7 de janeiro de 1893, a nave entrou na Baía do Rio de Janeiro. Somente no dia 10, porém, os passageiros puderam desembarcar na Ilha das Flores.
No mesmo dia, tomaram um navio costeiro com destino ao Rio Grande do Sul, onde chegaram em 13 de janeiro de 1893.
Hospedagem e episódio policial em Porto Alegre
A época em que os emigrantes austríacos vieram ao Rio Grande do Sul era politicamente turbulenta. Em 1892, eclodira a Revolução Federalista. Com alternado êxito, os partidários de Silveira Martins, federalistas, mantinham com os seguidores de Júlio de Castilhos, republicanos, uma luta fratricida que somente terminaria em 1895.
No dia 20 de janeiro, os austríacos chegaram a Porto Alegre e foram acolhidos na Casa dos Imigrantes, no Cristal, à margem do Guaíba, naquele tempo alguns quilômetros fora da capital.
Poucos dias depois, alguns componentes do grupo envolveram-se em bravatas no Hotel Becker, no Caminho Novo, inclusive exibindo armas recebidas da fábrica onde trabalhavam na Áustria. Embora inofensivas, tais atitudes foram denunciadas às autoridades como ameaça à ordem pública.
Na mesma noite, uma pequena embarcação levou o chefe de Polícia com soldados para investigar o incidente. Participaram da expedição o senhor Becker e os alemães Bins e Friedrich, que buscavam assistir os conterrâneos com suas recomendações. Na Casa dos Imigrantes houve grande alvoroço. Todos tiveram que se levantar de suas camas, e os cinco componentes da comissão representativa dos imigrantes — Samrsla, Feldmeier, Haiske, Katzenschlaeger e Streicher — foram submetidos a prolongado interrogatório e detidos pela polícia.
Graças ao empenho dos alemães citados e das autoridades diplomáticas alemã e austríaca, foram novamente liberados, mas tiveram que pagar uma taxa de 3.000 réis. Como traziam apenas 12.000 réis, um deles teve que voltar à prisão. Felizmente, um italiano do sul do Tirol intercedeu pelo detido e, com 3.000 réis, conseguiu libertá-lo.
Na visita à Hospedaria dos Imigrantes, a polícia apreendeu todas as armas que os imigrantes traziam consigo. As armas de caça foram devolvidas, mas revólveres e pistolas foram considerados dispensáveis.
Rumo ao interior do Estado
Dentre as colônias oferecidas aos imigrantes, 55 famílias optaram por Ijuí, enquanto outras seguiram para Jaguari. As demais famílias encontraram emprego em uma fábrica de vidros ou ficaram retidas por motivo de saúde.
Antes da partida, alguns visitaram o redator do Deutsches Volksblatt, Clemens Wallau, e o padre Brinkmann, S.J., que lhes batizou as crianças. Ambos lhes deram bons conselhos e deixaram a admoestação: “Quem persevera terá êxito”. Essas recomendações ajudaram o grupo a reencontrar coragem nos momentos difíceis.
No dia 4 de fevereiro, prosseguiram viagem para o interior. O trajeto até a margem do rio Taquari foi vencido a vapor. De lá, seguiram de trem até Santa Maria, onde permaneceram de 8 a 12 de fevereiro. Depois, organizaram um comboio com 24 carretas de boi, nas quais recolheram seus pertences, as mulheres e as crianças. Os homens e parte das mulheres seguiram a pé.
A caravana levou 12 dias até alcançar Ijuí, onde os imigrantes ficaram alojados em três barracões.
Os primeiros tempos em Ijuí
Até esse momento, todos haviam sido sustentados pelo governo federal. Em Ijuí, receberam vales: 400 réis para os adultos e 200 réis para cada criança. Com esse dinheiro, podiam fazer compras nas três casas comerciais existentes na sede: Kopf, Barros e Berenhauser.
Desejosos de continuar reunidos, os imigrantes escolheram suas colônias nas Linhas 5 a 8 Leste, com sede na Linha 6 Leste. Cada chefe de família recebeu um machado, uma foice, um facão, dois pacotes de pregos e uma fechadura para porta. Para cada quatro famílias, foi destinado um rebolo e um serrote traçador.
O início na mata virgem exigiu muita perseverança e renúncia. Os primeiros ranchos provisórios foram cobertos com folhas de coqueiro e capim. As primeiras casas, cobertas com tabuinhas e habitadas por várias famílias em comum, representaram a etapa seguinte de progresso.
Somente depois de realizadas as tarefas mais urgentes, foram sendo construídas novas casas, de modo que, já no inverno, cada família possuía o seu próprio lar. As paredes eram feitas de bambu e, em pouco tempo, ficaram reduzidas a pó pela ação do cupim. O problema foi resolvido com a ideia de construir paredes e tetos com esteiras trançadas de taquara.
Com a chegada da primavera, foram desmatadas áreas para o plantio de milho. O clima era favorável e proporcionou boas colheitas. Infelizmente, o florescimento periódico do bambu atraiu milhares de ratos, e quase toda a produção de grãos foi devorada pelos roedores.
Depois de suspensos os suprimentos de vales, os imigrantes passaram a depender da renda do trabalho nas estradas, remunerado pela administração da colônia com diárias de 3.500 a 4.000 réis, pagas em vales. Como esses recursos não satisfaziam as necessidades mínimas, resolveram sacrificar trajes domingueiros e objetos trazidos da Europa, trocando-os por animais indispensáveis: vacas, cavalos e porcos.
Ludwig Streicher contou que trocou seu relógio de prata, com corrente, por um cavalo; sua melhor fatiota por um porco; e o vestido de gala da esposa por uma vaca. Nem assim o problema financeiro estava resolvido.
Construção da Estrada de Ferro Santa Maria–Cruz Alta
A necessidade obrigou os austríacos a procurar serviço em lugares distantes. Alguns foram para Porto Alegre, outros para Santa Maria, em busca de trabalho. Cerca de 70 homens marcharam a pé até Vila Rica, hoje Júlio de Castilhos, para trabalhar na construção da estrada de ferro Santa Maria–Cruz Alta.
O salário oscilava entre 2.000 e 3.500 réis por dia. Depois de economizarem algum dinheiro, seis operários resolveram retornar a Ijuí, recebendo todos juntos uma nota de 100.000 réis. Quando quiseram trocá-la, descobriram que era dinheiro já recolhido, somente aproveitável com desconto.
Na marcha até Cruz Alta, tiveram que passar por linhas de tropas revolucionárias que devastavam a região. Conseguiram atravessar graças aos passaportes que traziam e ao auxílio de um oficial que falava alemão.
Em Cruz Alta, compraram mantimentos em uma padaria, cujo dono recusou a nota de 100.000 réis e os despachou sem exigir pagamento. Somente em Ijuí conseguiram trocar o dinheiro, com desconto de 20%. Durante sua ausência, os familiares sofreram privações e se alimentaram de farinha de milho e feijão, sem banha. De regresso, voltaram a trabalhar nas estradas.
Às voltas com efetivos revolucionários
Pouco depois, apareceram em Ijuí tropas revolucionárias, com efetivo de 800 a 1.000 homens, comandadas por Gumercindo Saraiva. Os prejuízos sofridos pela colônia reduziram-se principalmente à troca de bons cavalos por animais cansados da coluna rebelde. Dois moradores foram assassinados, talvez mais por equívoco do que por maldade.
Condições precárias das vias de transporte
As condições de transporte eram muito ruins. Os colonos tinham que varar o Rio da Ponte a cavalo, tarefa perigosa durante as enchentes. Não raro as águas levavam cavalos, carregamentos e tudo. Até vidas humanas foram sacrificadas nas torrentes.
Uma ponte construída em 1896 por colonos e comerciantes custou 4 contos de réis, mas não sobreviveu à enchente de 1898. O então chefe da Colônia, Dr. Augusto Pestana, a quem muito deviam os imigrantes, mandou construir imediatamente uma ponte flutuante provisória, que resistiu bem às inundações.
Assistência religiosa, educação e cultura
Os pioneiros austríacos encontraram no padre Anton Cuber, primeiro cura de almas em Ijuí desde 1896, um apreciado amigo. Embora polonês, falava muito bem o alemão. Dele receberam grande apoio e ampla assistência religiosa.
Como não havia escola pública, os imigrantes austríacos, depois de organizadas suas colônias, puderam dedicar-se à educação de sua numerosa prole. Resolveram construir uma escola de alfabetização. Cada um contribuiu com madeiras, serragem de tábuas, mão de obra, produtos e dinheiro. Junto à escola, foi reservado um lugar para sede social e cemitério.
A área foi dada pelo diretor da Colônia, satisfeito com o espírito de progresso e solidariedade de seus “austríacos”. Aos domingos e feriados, reunidos na escola, escutavam as melodias de violinos e flautas, acompanhando cantigas de sua terra natal.
O exemplo dos “austríacos” foi seguido por toda a população da colônia, impressionada por seu progresso material e cultural, por sua determinação, dedicação e espírito comunitário.
“O que herdaste de teus maiores, conquista-o, para o possuíres.”
Goethe
A família Prauchner
Com base no relato histórico de Ludwig Streicher e apoiado em alguns documentos existentes, Nelson Prauchner, bisneto do patriarca Johann, conclui que a família Prauchner, embora originária da região de Amstetten, na Baixa Áustria, fez parte do grupo que procedia da Stíria, no leste do Império Austríaco, área afetada pelas transformações territoriais posteriores à Primeira Guerra Mundial e hoje relacionada à atual Eslovênia.
Segundo essa interpretação, a família somou-se ao grupo vindo de Steyr ou do Tirol na cidade de Udine, na Itália, partindo dali para o porto de Gênova.
Compunham a família Prauchner, nesta viagem, o casal Johann, com 50 anos, e Theresia, com 45, além dos filhos Friedrich, 19; Ferdinand, 17; Maria, 14; Franz, 13; Alois, 10; e Wilhelm, 4. O filho mais velho, também chamado Johann, com 22 anos, prestava serviço militar e veio ao Brasil anos mais tarde.
O patriarca Johann trabalhou nas oficinas da K.K. Priv. Südbahn-Gesellschaft, em Marburg an der Drau, hoje Maribor, na Eslovênia, como mestre serrador, até 10 de dezembro de 1892. Dez dias depois, estava a bordo do navio Arno, com a família, rumo ao Brasil.
No Brasil, a família Prauchner foi assentada na localidade de Linha 6 Leste, no município de Ijuí, no Rio Grande do Sul. Como as demais famílias de imigrantes, teve um duro início de vida em uma região de mata fechada. Urbanos que eram, foram obrigados a aprender as lides agrícolas.
O sonho de um dia voltar à Áustria desvaneceu-se aos poucos, transformado em sentimento de gratidão à nova pátria, que lhes proporcionou sobrevivência e futuro para seus descendentes.
Hoje, o clã Prauchner, descendente desse casal pioneiro, já ultrapassa o número de 500 integrantes, espalhados por boa parte do território brasileiro.
Outubro de 2010.